Invocar Lenin em vão, quando nos chega La Palisse PDF Imprimir e-mail
22-Out-2012
Contributo de Mário Tomé.

Na apresentação das duas moções à Convenção, em Lisboa, no passado dia 19, surgiu como um meteoro demolidor uma invocação de Lenin como argumento, a acrescentar ao muito usado "temos que mostrar que somos capazes",  para a necessidade de uma política que assegure a presença do BE na governação.

O argumento foi curto e grosso: Lenin considerava fundamental a ocupação do Estado. Mesmo socorrendo-se de Lenin não deixa de ser uma lapalissada pois numa sociedade de classes o poder para impor uma política exige a posse do aparelho do Estado. Na Venezuela, na Bolívia, na Alemanha, no Reino Unido, nos EUA , na Rússia, na China, a rapaziada sabe isso na perfeição e a essa concepção elementar nem escapam Cavaco, Passos Coelho ou o Gaspar das botas altas.

O argumento pretende fundamentar, portanto, as políticas de alianças tanto para as autárquicas como para as legislativas.
Analisando o argumento curto e grosso de forma mais alongada e, quiçá, mais fina só podemos socorrer-nos de outra lapalissada: que política impõe e a quem a impõe, nesta sociedade de luta de classes cada vez mais descarada,  o Estado sob ocupação, admitindo que o Estado é apenas um aparelho que se ocupa ou desocupa como uma sala de reuniões ou um posto de comando de onde emanam decisões e onde se inserem os instrumentos coersitivos e coersivos necessários.

Essa política, outra lapalissada benvinda, é definida pela correlação de forças em disputa na sociedade,( a luta de classes que o Bloco invoca sem oposição visível)  que também traça e define as características do próprio aparelho, ou aparelhos de Estado, não só a partir de cima, quem manda, mas também pela força de quem está e vem lá. Entende-se.

Para citar Lenin, ou invocar, como fez o camarada a que me refiro, sobre o Estado seria preciso ter como ponto de partida o mesmo que ele, ou seja a teoria marxista sobre o Estado: o Estado é uma criação histórica da própria sociedade para tentar resolver o que é insolúvel: as posições inconciliáveis, desde a sua raiz até à folhagem mais frondosa e florida, entre os interesses económicos das diferentes classes. O Estado surgiu na tentativa (lograda até hoje) de evitar que a contradição insolúvel entre classes leve à sua consumação e da própria sociedade. O Estado em última análise é a salvação da sociedade de classes. Ao mesmo tempo a sua necessidade é a demonstração de que as contradições de classe são inconciliáveis, como diria o amigo do nosso amigo argumentador.

Pois bem, hoje na nossa sociedade de classes, o carácter antagónico da contradição, constantemente (à excepção das erupções revolucionárias) encoberta por “o véu”, não tão diáfano como lhe chamou Eça, vai-se encorpando célere ao ponto de já não poder ser escamoteado. Provam-no os acontecimentos recentes, em Portugal e na Europa.

A tentativa de esconder a oposição, não só inconciliável mas brutalmente antagónica, entre a troika e o movimento social sujeito a uma guerra sem pausa nem quartel, é atribuição reivindicada com ardor pelo Partido Socialista:

Portanto, citar, ou invocar, Lenin para justificar o esforço inglório, deprimente, e desprestigiante de conseguir, laboriosamente pois claro, uma solução governativa com o PS que corresponda ao sentimento e à acção contidos na consigna “que se lixe a troika” que a cidadania impôs na sociedade portuguesa, não passa de uma gafe oportunista que remete para o título da Moção B: «Por uma resposta socialista de combate».

 
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