"Somos, portanto, europeístas de esquerda: socialistas na proposta e solidários na atitude. Chegou a hora dos de baixo enfrentarem a crise unidos. Os pobres, os jovens, o mundo do Trabalho, a Cultura e a Ciência, precisam de uma Europa que devolva a esperança. Esta é a candidatura que quer traduzir essa aspiração". Leia aqui o Compromisso desta Candidatura do Bloco de Esquerda.
Compromisso
eleitoral
Candidatura
do Bloco de Esquerda
Europeias
2009
A lista apresentada
pelo Bloco de Esquerda às
eleições europeias de Junho de 2009, composta por
activistas partidários e por cidadãos e cidadãs
independentes de esquerda, situa a sua intervenção no
contexto e no respeito pelas orientações definidas pelo
Bloco de Esquerda na sua VIª Convenção Nacional
para
todo o ciclo político de 2009 e 2010.
O combate europeu do
Bloco de Esquerda é o mesmo que o distingue em Portugal:
junta forças, proposta e alternativa com quantos se revêem
na urgência de uma ruptura com as politicas e os políticos
que colocaram o planeta, a Europa e o nosso país numa crise
social de proporções incalculáveis.
A nova
crise de um velho sistema
As
eleições europeias serão marcadas pela crise
financeira, económica e social que está
a varrer o planeta, a Europa e cada um dos seus países.
A
tragédia social provocada pela crise exige e impõe a
ruptura com as políticas e com os políticos que por ela
devem responder. A crise não é um castigo divino, uma
catástrofe natural ou, sequer, o fruto da ganância de
alguns banqueiros e especuladores bolsistas. A crise que enfrentamos
é filha de orientações políticas e
económicas precisas - as que foram seguidas pelas
instituições financeiras e pelos governos do primeiro
mundo desde os anos 80, fossem estes de direita, de centro ou de
centro-esquerda.
Na
Europa, as comissões europeias
posteriores ao Tratado de Maastricht seguiram, sem excepção,
a cartilha neo-liberal e em Portugal o mesmo sucedeu com os governos,
de Cavaco Silva a José Sócrates. Todos, sem excepção,
acreditaram que o crescimento económico dependia da livre
circulação dos capitais pelo mundo, que o
enriquecimento sem limites de alguns era uma condição
do bem comum e que o mercado, qual Deus ex
machina,
seria capaz de substituir, progressiva ou radicalmente e com
vantagem, as obrigações e direitos sociais consagrados
pelos Estados.
Este
é o balanço que vai estar em causa nas eleições
europeias. Os eleitores e as eleitoras terão a oportunidade de
julgar, não apenas a política da comissão
presidida por Durão Barroso, como também a dos governos
europeus, incluindo o de José Sócrates. Infligir uma
séria derrota eleitoral aos responsáveis pela tragédia
social em curso não é apenas um imperativo de justiça
sobre o passado; é também a garantia de que a saída
da crise se não fará à custa dos mesmos de
sempre.
A
candidatura apresentada pelo Bloco de Esquerda fará
campanha contra uma crise cuja superação exige novas
políticas e uma nova geração de responsáveis
políticos. Chegou o tempo de confrontar e derrotar, com
coragem e ousadia, o credo e a ordem neo-liberais. Na Europa como em
Portugal e em Portugal como na Europa, esta é a convicção
que orienta o nosso compromisso.
"Correr
atrás do prejuízo"
A
União Europeia que temos, com a ideologia que a domina, não
tem estado à altura das responsabilidades que a crise impõe.
A
espiral
recessiva em que a Europa se encontra é tão profunda
quanto a dos EUA ou do Japão. Apesar disso, Bruxelas revela-se
incapaz de concertar uma estratégia comum para o relançamento
das economias. A crise evidencia os limites e fraquezas de uma
construção europeia que unificou os mercados mas sempre
se recusou a desenvolver políticas comuns para defender o
emprego e melhorar a protecção social.
Os
líderes europeus começaram por subestimar os sinais de
crise que, desde 2007, se anunciavam do outro lado do Atlântico.
Eles sabiam que os lucros realizados na esfera financeira tinham
deixado de ter qualquer correspondência com o crescimento da
produção, que era medíocre; sabiam, também,
que a parte do Trabalho nos rendimentos do primeiro mundo perdia
peso, ano após ano, em favor do capital; finalmente, sabiam
que a contenção que impuseram aos salários e
pensões se fazia a troco de uma ilimitada e irresponsável
expansão do crédito para consumo e habitação.
Eles sabiam, porque foram os responsáveis pela fabricação
deste "milagre" com pés de barro. Apesar disso,
acreditaram que a Europa estaria ao abrigo das ondas de choque da
crise que emergia nos Estados Unidos da América. Só
esta miopia explica que, em Julho de 2008, o Banco Central Europeu
tivesse aumentado, pela enésima vez, as suas taxas de juro, e
que, até meados de Outubro, as tivesse mantido, numa inaudita
demonstração de autismo.
Só
com a casa a arder, os
quatro grandes de Bruxelas tomaram as primeiras medidas destinadas a
salvar a banca e os banqueiros do naufrágio. Como se sabe,
nenhuma delas estabilizou o sistema financeiro ou impediu que a
gangrena da recessão se instalasse na Europa. Desde o inicio
que os líderes europeus "correm atrás do prejuízo"
e assim continuam. Todos apresentaram aos respectivos parlamentos
Orçamentos de Estado irrealistas, misturados com anúncios
de intenções. Só em Dezembro os governos
discutiram um pomposo "plano" da Comissão Barroso, que se
limitava a juntar, num cardápio de medidas avulsas e não
raro contraditórias, as diferentes promessas nacionais. Na
verdade, o plano é "cada um por si", porque essa é
a vontade que anima cada governo. Ante a crise, a "Europa de cima"
perde por falta de comparência e revela-se tão impotente
quanto os primeiros-ministros que a dirigem.
Quando
a progressão galopante do desemprego e da precariedade
exigiria novos recursos postos em comum e políticas europeias
sectoriais fortes, os governos que pensam aguentar-se sozinhos
recusam compromissos e os restantes resignam-se. A maioria dos
líderes e Durão Barroso invectivam a França
porque esta quer condicionar os apoios públicos ao sector
automóvel à manutenção dos empregos e à
garantia de que novas fábricas para carros menos poluentes se
instalem no país; mas, ao mesmo tempo, a União é
incapaz de chegar a uma estratégia comum para este sector
vital da indústria europeia, responsável por dois
milhões de empregos directos.
A
candidatura apresentada pelo Bloco de Esquerda defende que os
apoios públicos sejam condicionados, em escala europeia, à
manutenção dos empregos, que os despedimentos
preventivos devem ser proibidos e que a deslocalização
de empresas financiadas com capitais e apoios públicos deve
ser duramente penalizada. Pensamos ainda que a distribuição
de dividendos em empresas com apoios públicos deve ser
suspensa. Em contrapartida, as políticas de crédito
devem obedecer a critérios de interesse público,
favorecendo o relançamento da economia. A banca nacionalizada
tem, na generalidade dos países, condições para
impor ao mercado bancário, regras não usurárias
que o sector financeiro privado seguirá se não quiser
perder os seus clientes. É em tempos de crise que melhor se vê
a quem servem as politicas e os políticos.
A
mesma paralisia e o
apego ao credo da "liberdade de estabelecimento e concorrência"
têm marcado a presença europeia nos fóruns
internacionais. A União deveria concentrar-se numa agenda de
reforma do sistema monetário internacional, insistir no
encerramento dos offshores
e na regulação pública do sistema financeiro.
Deveria ainda bater-se pela prioridade no combate à pobreza,
que progride, avassaladora, nos países mais desprotegidos do
planeta. Estas não são, contudo, as prioridades dos
líderes europeus. Em 2008, as ajudas ao desenvolvimento dos
países do primeiro mundo não ultrapassaram 0,3 por
cento do respectivo PIB agregado e é de recear que a crise
sirva de pretexto para novos cortes.
A
braços com eleições domésticas e com a
pressão das respectivas elites nacionais, os
governos disparam medidas em todas as direcções,
evitando, afinal, a escolha decisiva: é ao capital e não
ao trabalho que se devem ir buscar os recursos para enfrentar as
dificuldades.
A
crise evidencia a falência do projecto europeu tal como o
conhecemos. O ocaso da União quando os que sofrem mais
precisariam dela, constitui, em si mesmo, a certidão de óbito
de uma estratégia fundada no mercado único e na moeda,
mas amputada de políticas públicas fortes nos planos
económico e social. Para o tempo que aí vem, Bruxelas
não está preparada.
A
candidatura apresentada pelo Bloco de Esquerda responde à
gangrena do desemprego e da precariedade com a exigência de uma
refundação democrática e social do projecto
europeu.
Ante
a crise, os europeus precisam de uma União com coragem para
mobilizar os recursos que coloquem a solidariedade e o emprego no
centro das políticas europeias. A urgência social funda
o compromisso desta campanha e a atitude dos que forem eleitos para o
Parlamento Europeu.
O
Tratado de
Lisboa já era
Um
novo Tratado Europeu,
preparado em moldes democráticos, é indispensável
para que as instituições europeias respondam
à cidadania europeia
e sejam capazes de lançar e sustentar as políticas que
a crise exige.
Ao
longo do mandato que agora termina, o eurodeputado do Bloco de
Esquerda teve oportunidade de desenvolver, em Portugal e noutros
países europeus, críticas fundamentadas
que motivaram a rejeição do texto do primeiro Tratado
Constitucional, chumbado por franceses e holandeses em referendos
extraordinariamente participados, e à sua sequela, o Tratado
de Lisboa, entretanto recusado pelos irlandeses. Apesar de chumbado
por três dos cinco povos que se puderam pronunciar em
referendo, as elites europeias continuam a insistir na sua entrada em
vigor.
A
reincidência no erro coloca
no centro do debate europeu a questão da democracia. No
labirinto das ratificações, a União revelou os
seus piores vícios de autoritarismo e arrogância que,
alias, critica em tantos outros. É verdade que o divórcio
entre Bruxelas e a cidadania europeia mergulha as suas raízes
nas políticas prosseguidas desde os anos 90 e no modo como
optou pelo alargamento aos mercados de leste, em detrimento do
aprofundamento da vertente social da integração. Mas é
indiscutível que o modo como procurou afastar os povos da
consulta popular agravou a desconfiança e o cepticismo com que
hoje tantos olham para o projecto europeu. Em Portugal, a recusa do
referendo confrontou as palavras e os actos dos partidos que se
comprometeram com ele, antes de o negarem. Também o valor da
palavra dada estará em avaliação nas eleições
de Junho.
Entretanto,
a crise interroga com nova acuidade o Tratado de Lisboa. Com efeito,
ele foi pensado para resolver as dificuldades da "eurocracia"
antes da crise se ter instalado de armas e bagagens na vida
quotidiana dos europeus. Os objectivos da União, as funções
e limites atribuídos a cada uma das instituições,
a arquitectura de poder e os processos de decisão previstos,
foram desenhados para um tempo que passou. Não é com um
mau Tratado do século XX que a Europa responderá aos
problemas colocados pelas novas e velhas
convulsões
do início do século XXI.
A
União precisa de um Pacto para o Emprego e o Desenvolvimento
sustentável. Contudo, o que o Tratado de Lisboa consagra é
um Pacto de Estabilidade, que tem justificado a compressão da
despesa social em cada país e que, entretanto, nenhum governo
já respeita.
A
União precisa de um Banco Central Europeu democraticamente
escrutinado e que coloque a política monetária ao
serviço da criação de emprego. Contudo, o
Tratado de Lisboa confirma um BCE politicamente incontrolável
e submetido ao objectivo do controlo dos preços, mesmo que o
horizonte dos próximos anos seja o da tenaz do desemprego com
deflação.
A
União precisa de um quadro financeiro ambicioso, que lhe
permita impulsionar serviços públicos e políticas
sectoriais de escala europeia. Contudo, o Tratado de Lisboa impede
orçamentos com saldo negativo e sujeita qualquer medida de
ordem fiscal ao espartilho da unanimidade entre os 27.
A
União precisa de harmonizar os direitos do Trabalho no
interior das suas fronteiras, para evitar a concorrência entre
trabalhadores de diferentes países, como recentemente ocorreu
no Reino Unido. Só uma estratégia de nivelamento de
direitos pode, num contexto de crise, contrariar com sucesso, o
renascimento das reacções de tipo chauvinista. Contudo,
ela não é garantida pela Carta dos Direitos
Fundamentais, que carece de força imperativa e de que a
Inglaterra se excluiu.
A
União precisa de instituir o princípio de um rendimento
mínimo europeu e uma politica que lhe permita complementar as
prestações sociais dos países mais pobres, para
realizar objectivos de justiça social e garantir a protecção
do poder de compra das famílias mais pobres. No entanto, este
horizonte choca com o Tratado de Lisboa, que relega as políticas
sociais para o exclusivo domínio das opções de
cada Estado.
A
União precisa ainda de uma política europeia de gestão
de fluxos migratórios onde a concretização de
políticas fortes de cooperação com o terceiro
mundo se articule com o direito à mobilidade dos seres
humanos, reconhecido pelas Nações Unidas. Contudo, o
Tratado de Lisboa apenas "europeíza" o controlo das
fronteiras externas e os repatriamentos, mantendo no âmbito dos
Estados as políticas de integração.
A
candidatura apresentada pelo Bloco de Esquerda responde à
crise institucional da União com um
desafio - que Bruxelas e os governos desistam do Tratado de Lisboa
e removam, por via legislativa corrente, os principais obstáculos
que os actuais Tratados colocam à emergência social em
que a Europa se encontra.
O
Bloco será favorável à elaboração
de um novo Tratado Europeu pelo Parlamento Europeu, que seja conciso
e preciso sobre os objectivos da União, os direitos sociais,
ambientais e políticos dos cidadãos, e sobre a
arquitectura institucional e as atribuições de cada
órgão. Este texto sintético deve ser submetido
aos parlamentos nacionais para emendas e, na sua forma final, deve
ser referendado e ratificado de acordo com os tratados actualmente em
vigor.
O desafio do
desenvolvimento sustentável
A
crise económica e social
não isenta a Europa de responder com coragem e solidariamente
ao desafio imposto pelo aquecimento global do planeta.
Se
compararmos as políticas ambientais em escala mundial, a União
Europeia encontra-se na primeira linha das
respostas ao desafio que o aquecimento global do planeta a todos
impõe. Não é por acaso que os movimentos
ecologistas por todo o mundo tomam por referência várias
políticas europeias quando formulam as suas propostas; ou que
idênticos movimentos na Europa invocam a legislação
comunitária para forçarem os respectivos governos ao
cumprimento das suas obrigações. Se há domínio
onde a integração de Portugal na União se
revelou positiva, esse foi, sem dúvida, o da exigência
ambiental.
A
União foi o único grande centro de decisão
mundial a introduzir metas políticas num sector que, antes,
dependia apenas das regras do mercado. Até 2020 quer reduzir
em 20 por cento as emissões de carbono para a atmosfera;
diminuir em 20 por cento os consumos energéticos; e aumentar
para 20 por cento o peso das energias renováveis no pacote de
recursos energéticos. Esta estratégia não está,
entretanto, isenta de crítica. A primeira meta é
insuficiente. A sua dependência do mercado de emissões
de CO2 permite aos países mais ricos exportar as indústrias
poluentes para os mais pobres e ainda obterem créditos
financeiros por essa via. Na verdade, trata-se de um mecanismo de
contenção, quando o planeta precisa de uma estratégia
de redução, se quiser inverter a tendência para o
aquecimento progressivo.
As
duas metas seguintes dependem directamente das políticas
energéticas e enfrentam a resistência dos fabricantes de
automóveis e das grandes multinacionais do petróleo. A
dependência da União face ao petróleo e ao gás
da Rússia e da Argélia acaba por contaminar a coerência
da própria estratégia. No jogo de influências
geo-estratégicas se insinuam o lobby da indústria
nuclear e os grandes produtores de biocombustíveis de primeira
e segunda geração, que aproveitaram a presidência
portuguesa da União para introduzirem a sua própria
meta no mix
de energias. O objectivo proclamado por José Sócrates e
Durão Barroso - atingir 10 por cento de energia produzida a
partir de cereais e leguminosas - explicou, pelo menos em parte, a
especulação que assaltou os preços dos cereais
no último semestre de 2007 e que esteve na origem da
justíssima revolta de milhões de pobres em vários
países do planeta.
Ao
longo dos últimos meses, a estratégia europeia tem sido
posta em causa por vários governos. Essa fronda não foi
movida por bons motivos. Berlusconi e vários governos de Leste
argumentaram com a crise para fazerem recuar as metas ou dilatá-las
no tempo. O compromisso alcançado pelos governos europeus em
Dezembro é frágil. Por limitadas que sejam as ambições
dos 27 e frágeis os mecanismos de mercado em que assentam, a
desunião da Europa só facilita a evasão de
quantos, dos EUA à China, recusam enfrentar a urgência
deste combate decisivo para as gerações futuras.
A
candidatura apresentada pelo Bloco de Esquerda recusa qualquer pausa
ou diminuição de ambição nas metas
definidas pela União em matéria ambiental,
em nome do combate à crise económica. Pelo contrário,
considera que esta é a oportunidade para requalificar, com
ajuda do investimento público europeu, os sectores industriais
mais poluidores e o momento para mobilizar recursos para políticas
de apoio às indústrias de transportes colectivos menos
poluentes e de requalificação urbana, com efeitos
imediatos na eficiência energética dos edifícios
e habitações.
No
Parlamento Europeu, o Bloco apoiará as medidas que impulsionem
a investigação científica, o armazenamento e
captação de CO2 e a diversificação de
fontes de energia com exclusão da expansão dos
biocombustíveis e da opção nuclear.
O
Bloco será ainda favorável a novos acordos
internacionais que estabeleçam metas mais exigentes, a
penalização dos faltosos e a superação do
actual mercado de emissões. Os EUA e a UE, que continuam a ser
os maiores poluidores mundiais, devem mutualizar fundos, saberes,
tecnologias e investigação com os países
emergentes, de modo a alcançar um compromisso mundial nivelado
por cima.
A
Europa deve ainda envolver-se
em projectos partilhados de combate à desertificação
e de gestão integrada dos recursos da água e orientar a
sua política de investigação científica
para o combate às doenças endémicas da pobreza,
indissociáveis do ambiente em que se desenvolvem. Finalmente,
a Europa deve especializar-se na prevenção de
catástrofes, formando um corpo profissionalizado de Soldados
da Paz, capaz de intervir em território europeu e fora dele, a
pedido, sempre que tal se revele útil e necessário.
Novas prioridades para a
Europa
A
Europa de que precisamos para dentro - dotada de políticas
sociais
que combatam a pobreza, apostada na qualificação e nos
direitos do Trabalho, ambientalmente exigente e culturalmente
respeitadora das diferenças - é também a
Europa de que o Mundo precisa para, solidariamente, enfrentar a
galopante progressão da miséria, do desemprego e da
precariedade.
A
primeira grande crise do capitalismo
na era global implica o planeta no seu conjunto. Os destinos do Sul e
do Norte estão, mais do que nunca, ligados. O custo social da
crise não se reparte igualmente pelos países. Em
Portugal, 40 por cento dos desempregados não têm acesso
ao subsídio de desemprego, as pensões de reforma mais
baixas são miseráveis e o salário mínimo
é de 450 euros, menos de metade dos que existem em vários
países da União. Mas em África e em grande parte
da Ásia e da América Latina não há sequer
subsídio de desemprego, pensões de reforma ou salários
mínimos. Para milhões e milhões de seres
humanos, um ponto a menos no PIB mede a diferença entre a vida
e a morte. É nesta realidade profundamente desigual que radica
a urgência das políticas de ajuda ao desenvolvimento e a
necessidade de encararmos os movimentos migratórios com base
no reconhecimento da mobilidade como um Direito Humano. Dois terços
destes movimentos fazem-se no interior de cada país e a
explosão da miséria nas grandes megalópoles é
a sua principal consequência. O primeiro mundo não pode
continuar a destinar migalhas para a cooperação
enquanto faz das suas fronteiras autênticas fortalezas muradas.
O comportamento da União Europeia neste domínio tem
sido, simplesmente deplorável. Durante anos, manteve as
políticas de imigração na estrita esfera de
soberania de cada Estado. Mais recentemente, os governos aceitaram
"europeizar" a dimensão repressiva e securitária
dessas políticas, não abdicando das suas prerrogativas
em matéria de integração. A Europa está,
portanto, a construir o edifício de uma política comum
pelo telhado. O menosprezo pelos direitos humanos dos imigrantes é
o resultado desta estratégia que tem na Directiva do Retorno o
seu mais célebre e triste episódio.
Como
no desafio do aquecimento climático, que não conhece
fronteiras, também a crise económica e social exige que
a sua superação se faça com solidariedade,
nivelando os direitos por cima, sob pena dela carregar a tragédia
sobre os ombros dos mais fracos. Esta é a questão
central que hoje separa as águas entre a esquerda e a direita
e que irá definir o lugar da União Europeia no mundo.
As
liberdades de circulação de capitais, de
estabelecimento e de comércio sem barreiras alfandegárias,
alteraram significativamente a divisão internacional do
trabalho. A China transformou-se na grande fábrica do mundo. A
União Europeia, depois de se ter fundado sobre o Mercado
Interno, apostou decididamente nesta via, cuja lei tem sido a da
conquista de quotas de mercado sem contrapartidas ao nível das
infra-estruturas, dos direitos sociais e da formação e
qualificação profissionais. Na óptica das
multinacionais, o custo do trabalho e a evasão fiscais
transformaram-se nos principais factores de decisão para
localizar ou deslocalizar unidades industriais. Este processo teve
consequências contraditórias: por um lado, muitos países
foram colocados fora da corrida industrial; já outros, de
maior dimensão, agarraram a oportunidade com as duas mãos.
O efeito combinado deste desenvolvimento desigual sobre o velho
continente foi o da explosão da precariedade nas relações
laborais. A competição por via da contracção
da massa salarial explica o enfraquecimento das legislações
de trabalho em inúmeros países, o ataque à
contratação colectiva, a possibilidade legal de
aumentos exponenciais dos horários de trabalho e a diminuição
das contribuições para os sistemas de protecção
social.
É
cada vez mais difícil produzir
a preços asiáticos com salários europeus. A
crise mundial está a agravar esta contradição
porque o crédito que alimentava os níveis de consumo no
primeiro mundo se tem vindo a contrair, colocando inúmeros
sectores industriais e de serviços em situação
de sobre-produção. A deflação dos preços
é a consequência anunciada de um movimento recessivo que
está a colocar milhões de trabalhadores à beira
do desemprego. Nesta espiral recessiva, os despedimentos são a
cara de uma moeda que tem na sua coroa a multiplicação
das formas de trabalho precário e sem direitos. Em contexto de
crise, o capital pressiona, em todo o lado, sobre os salários.
Esta tendência, aliada à rarefacção do
crédito, alimenta, por sua vez, novas quebras na procura. Esta
é a cadeia depressiva que só políticas
socialistas podem contrariar.
A
candidatura apresentada pelo Bloco de Esquerda recusa quer o regresso
ao proteccionismo, quer a "asiatização" das
condições de trabalho na Europa para responder à
concorrência no comércio internacional. Pelo contrário,
sustentamos a urgência de um contrato mundial que, a exemplo do
que defendemos para o combate ao aquecimento global, nivele "por
cima" os direitos dos trabalhadores. Salários mínimos,
horários máximos de laboração, descontos
para a segurança social e direito de greve devem ser
generalizados
em todo o planeta. Em contrapartida, a Europa, os EUA e o Japão
devem reconhecer aos países menos desenvolvidos o direito de
protegerem as suas produções, e financiar os programas
que compensem o custo social da abertura dos mercados.
O
combate à pobreza e a defesa do poder de compra dos salários
são a chave do relançamento das economias, do mesmo
modo que o aquecimento climático é o horizonte que
obriga à sua requalificação e mudança nos
padrões de consumo. Uns e outro implicam uma nova ordem
económica
mundial onde os lucros se submetam à prioridade do emprego e
da satisfação das necessidades colectivas.
A
opção socialista e solidária que orienta as
nossas propostas depende da coragem para
se irem buscar os recursos aonde eles existem e da sua mutualização
ao serviço das novas prioridades.
Da
actual crise devem retirar-se todas as lições, mas uma
é a mais urgente: o sistema financeiro internacional deve ser
colocado ao serviço do bem comum. Só se justifica a
nacionalização da banca e dos seguros se os Estados
impuserem políticas de crédito sem usura e garantirem
que o dinheiro dos contribuintes não serve para pagar
indemnizações
a accionistas e salários e bónus do "outro mundo" a
gestores irresponsáveis. De outro modo, as nacionalizações
mais não são do que uma socialização de
perdas privadas.
Uma
crise mundial exige respostas em escala mundial.
Os
EUA
não podem impor ao Mundo limites ao endividamento quando não
os praticam para si e aprovam planos que o agravam ainda mais. Uma
reforma do sistema monetário internacional é
indispensável para evitar a competição por via
das diferenças cambiais entre moedas.
O
sistema financeiro é a segunda prioridade: os activos
transaccionados em bolsa devem passar a ser taxados em função
da sua natureza; a evasão fiscal deve ser combatida e o
primeiro passo é o encerramento dos offshores; do mesmo modo,
os governos têm meios para diminuírem drasticamente a
fuga aos impostos sobre o valor acrescentado no comércio
internacional e intracomunitário. Em conjunto, estes são
recursos mais do que suficientes para se relançarem as
economias em bases mais sólidas e justas. Apesar da enorme
destruição de capital fictício, é
possível responder à crise. O que tem faltado é
a vontade para o fazer. Hoje, os líderes queixam-se
amargamente de tudo o que antes permitiram. Mas ainda não
passaram das palavras aos actos e desculpam-se uns com os outros.
A
candidatura apresentada pelo Bloco de Esquerda
exige medidas de urgência aplicáveis em escala europeia,
independentemente do que façam outros centros de decisão
mundial: registo de todos os movimentos financeiros na direcção
dos offshores; acordo para o encerramento dos que se localizam na
Europa; criação de uma agência pública de
notação europeia que introduza princípios de
transparência na bolsa e no acesso aos empréstimos
internacionais; regulação pública das bolsas
europeias com seriação dos títulos admissíveis
e sua taxação diferenciada; combate decidido à
evasão fiscal no IVA intra-comunitário e registo dos
titulares de empresas de sub e sobre-facturação, com
interdição de formação de novas firmas.
Qualquer uma destas medidas vale mais do que todas as injecções
de capital e avales dados a um sistema bancário que vive do
segredo e da mentira.
Os
recursos assim obtidos devem ser mutualizados, financiando um
orçamento comunitário revisto
e ambicioso que se coloque ao serviço de prioridades que são
comuns, quer a uma política externa solidária, quer a
nível à coesão no espaço europeu: combate
à pobreza, defesa do emprego e do poder de compra dos salários
e requalificação industrial e urbana de combate às
alterações climáticas.
Da guerra preventiva à
prevenção da guerra
O
mundo pode ainda
obter recursos públicos de elevadíssimo montante se
deixar de os drenar para as despesas militares.
Os
Estados Unidos da América,
responsáveis por metade da despesa militar mundial, fundaram
na superioridade militar o predomínio global que tem
assegurado a continuidade do seu modelo económico e a
hegemonia na ordem internacional. As consequências deste poder
de tipo imperial são conhecidas e nenhuma administração
lhes pôs, até hoje, cobro. A recente eleição
de Barak Obama, que sucede à mais agressiva administração
das últimas décadas concentra, de momento, as suas
atenções na crise doméstica. Este não é
o menor dos riscos. Se nos principais centros de decisão vinga
o "cada um por si", as ondas de choque de tal opção
propagar-se-ão pelo planeta.
Ao
mesmo tempo que se vira para dentro, a nova administração
não rompeu com a doutrina da "guerra ao terrorismo"
herdada de G.W.Bush. A Casa Branca quer transferi-la
do Iraque para o Afeganistão, perpetuando-a num campo de
batalha sem qualquer horizonte que não seja o da sua própria
eternização. Também não se devem
alimentar expectativas quanto ao seu alinhamento com o Estado de
Israel, o que impede uma solução justa e equilibrada
para o conflito, com base nas resoluções das Nações
Unidas e na proposta oferecida pela Liga Árabe. Em todos estes
capítulos, a União Europeia deve ter uma posição
independente dos EUA e comprometida com o Direito Internacional. Se
os governos europeus declarassem que os responsáveis pelo
massacre de Gaza deveriam comparecer ante um tribunal internacional,
o Estado de Israel perceberia; como perceberia se Bruxelas, que paga
todas as facturas das destruições militares israelitas,
suspendesse o acordo de associação que tem com Telavive
e que se encontra condicionado ao respeito pelos Direitos Humanos.
É
este mesmo princípio de independência que deve levar a
União a favorecer a intenção anunciada por Obama
de reatar as negociações para o desarmamento nuclear.
Os países europeus com dispositivos nucleares devem
comprometer-se nesse processo e Bruxelas deve chamar si o dossier do
"escudo anti-míssil", que não é assunto de
soberania da Polónia e da República Checa, mas de todos
os europeus.
Os
tempos de crise são sempre perigosos para a Paz. O mundo deve
passar da doutrina da "guerra preventiva" à prevenção
das guerras. O princípio da solução dos
conflitos por meios políticos deve ser instituído na
ordem internacional e a Europa deve dar o exemplo. Ao contrário
do que se diz, a União não está indefesa nem
precisa de exército europeu. 25 por cento das despesas
militares mundiais são europeias - cinco vezes mais do que as
realizadas pela Rússia ou pela China e 25 vezes mais do que as
consumidas pelo Irão.
A
defesa europeia não precisa da NATO, uma instituição
herdada da guerra-fria e que é a principal responsável
pelas guerras que hoje ocorrem no mundo. A NATO, que celebra 60 anos
de idade, é uma organização ofensiva
sobredeterminada pelos interesses norte-americanos e que se tem
imposto, pela força bruta, às próprias Nações
Unidas.
A
segurança da União reside no desenvolvimento económico,
no modelo de protecção social e de direitos que ofereça
e na solidariedade que promova.
A segurança do mundo depende da eficácia no combate às
raízes em que se fundam todas as guerras e conflitos. Por isso
é tão importante a reforma das Nações
Unidas e do seu Conselho de Segurança.
A
candidatura apresentada pelo Bloco de Esquerda
defende o princípio da resolução dos conflitos
por via política e condena a doutrina da guerra preventiva.
Durante
a campanha assinalaremos o 60º aniversário da NATO
participando nas movimentações de quantos e quantas
defendem, na Europa, a sua dissolução, o fim das bases
estrangeiras em território europeu e a eventual instalação
do escudo anti-míssil norte-americano na Polónia e na
República Checa.
No
Parlamento Europeu, o Bloco de Esquerda defenderá
o reatamento das negociações para o desarmamento
nuclear. A segurança europeia deve ser garantida por um
Tratado de não agressão e cooperação
entre todos os países do Continente. Nessas discussões,
os aspectos relacionados com o respeito pelos Direitos Humanos e a
renuncia à guerra energética devem estar igualmente em
cima da mesa.
No
que toca aos conflitos armados, o Bloco continuará a pautar o
seu comportamento pelos critérios que nortearam o mandato
europarlamentar que agora se conclui. Reconhecemos o direito dos
povos à resistência contra o colonialismo, recusamos o
chamado direito de ingerência nos conflitos de terceiros e
consideraremos caso a caso a possibilidade de forças
multinacionais de interposição, desde que não
tenham enquadramento da NATO, sejam decididas pelas Nações
Unidas e tenham o acordo entre as partes beligerantes.
Portugal
deve sair da NATO.
Somos um pequeno país sem interesses estratégicos
vitais nos cinco cantos do planeta e que se deve especializar na
mediação de conflitos e na arbitragem com base nos
princípios do Direito Internacional.
Este
é o nosso compromisso.
Somos
europeístas, mas não somos eurocêntricos. O que
queremos para quantos e quantas vivem na Europa é o que
desejamos para o planeta.
Somos
europeístas, mas
não somos eurocratas. A nossa Europa é a que acredita
na auscultação dos povos e recusa a oposição
entre democracia representativa e instrumentos da democracia
participativa. Queremos mais e melhor Europa, mas recusamos a
uniformização, a diminuição das culturas
locais e a falta de respeito pelo mosaico de gentes, línguas e
povos de que a Europa se faz.
Somos
de esquerda. Sabemos com quem estamos e com quem não estamos.
Os nossos adversários não são os imigrantes, as
minorias étnicas, os pobres, os gays, os professores, ou quem
se encontra no subsídio de desemprego. Os nossos adversários
são os que colocam os seus rendimentos nas ilhas Caimão
enquanto despedem preventivamente e pedem subsídios ao Estado.
Somos,
portanto, europeístas
de esquerda: socialistas na proposta e solidários na atitude.
Chegou a hora dos de baixo enfrentarem a crise unidos. Os pobres, os
jovens, o mundo do Trabalho, a Cultura e a Ciência, precisam de
uma Europa que devolva a esperança. Esta é a
candidatura que quer traduzir essa aspiração.14
|