|
Artigo de Daniel Oliveira
Escreveu o camarada Luís Fazenda, a propósito
das críticas feitas à apresentação de uma moção de censura: “Agora que se
iniciou o processo da convenção nacional talvez não fosse desejar muito esperar
notícia das moções que se apresentem, da qualidade do argumentário, da
representatividade de que dispõem. Quem quer debate geral no partido recolhe 20
assinaturas e vem a jogo.
É óptima a discussão aberta entre opiniões contrárias
de bloquistas, mesmo quando tem lugar na tv ou nos jornais. No entanto, quando
os instalados "comentadores" falam do Bloco de Esquerda como um todo,
e até alegam crises internas (diabo!) convém perceber, é o mínimo, o peso das
coisas e das pessoas. Os media não dão cartão de eleitor no Bloco, como se viu
bem pelo "caso" Joana Amaral Dias. Felizmente há luar, mesmo quando
passam cometas. Quem disse que o Bloco não é um partido diferente?”
Apenas li críticas públicas à moção de censura
de pessoas ligadas às listas minoritárias com presença na Mesa Nacional, de Rui
Tavares e de mim próprio. Como os primeiros já se mediram em votos na última
convenção e o eurodeputado não é militante do Bloco de Esquerda, fico com a
estranha sensação de ser um dos destinatários deste desafio. E sobre esse
desafio tenho apenas quatro coisas a dizer:
1 – Que fico satisfeito por o camarada Luís
Fazenda ter finalmente dado a cara pela moção de censura. Sendo membro da
Comissão Política e deputado não pude deixar de sentir a sua ausência pública neste
importante combate que o partido tem pela frente. Pena que se tenha ficado pelo
Esquerda. Mas estou seguro que no próximo mês a direcção do Bloco lhe dará a
mesma tarefa que deu aos camaradas Francisco Louçã, Miguel Portas, Ana Drago,
João Semedo e José Manuel Pureza. Porque nos momentos difíceis o empenho de
todos é fundamental.
2 – Que esta moção teve uma excelente
oportunidade de ir a votos: a reunião da última Mesa Nacional, órgão
responsável pela direcção política do partido entre convenções. Não deixa de
ser extraordinário que depois do atropelo às regras democráticas do partido,
que levaram a Comissão Política a decidir um acto desta importácia táctica e
estratégica três dias depois da reunião de uma Mesa, sem que sequer o tema
fosse abordado na mesma, se venham fazer desafios à intervenção democrática dos
militantes nesta matéria. Digamos que o apelo vem tarde demais e devia começar
por ser feito à própria comissão política. Como delegado à última convenção,
elegi apenas a Mesa Nacional. Era ela, e não a próxima convenção, que devia ter
sido chamada a decidir. Não o foi. Apelos para recolher vinte assinaturas para discutir
uma decisão que já foi tomada são pelo menos bizarros. O camarada Luís Fazenda
quer medir a força da sua posição depois de uma decisão ser tomada mas não
achou necessário medir argumentos antes de tomar a decisão. Por mim, prefiro a
clareza da democracia interna a lutas de facções. E se houve quem tomasse
posições públicas talvez seja porque a direcção achou que o debate interno era
dispensável
3 – Que não me recordo de, na última convenção
do partido, ter aprovado nenhum documento que apontasse para a apresentação de
uma moção de censura desta natureza. E por isso não consigo perceber quando
terá ido esta opção a votos. A não ser, claro, que esta moção de censura tenha
como objectivo uma clarificação interna e que este estranho parágrafo do
camarada Luís Fazenda, que substitui a força do argumento pelo argumento da
força, apenas queira clarificar essa vontade de separação de águas. Só assim se
compreende que o camarada veja a critica a este gesto político como razão
bastante para a apresentação de uma moção contra a da lista da direcção. E se é
esse o objectivo, devolvo o desafio: que o camarada Luís Fazenda avance com
teses próprias, explicitando essa clarificação política interna que
aparentemente deseja.
4 – Não fazia ideia que a camarada Joana
Amaral Dias (que até apoiou publicamente esta decisão do partido) tinha um
“peso” diferente de qualquer outro militante. Se se trata de um “cometa”, será
tanto como o camarada Luís Fazenda ou qualquer membro do partido. O Bloco não
tem donos nem notáveis e as críticas de qualquer camarada, acertadas ou não,
valem exactamente o mesmo. A referência à camarada Joana Amaral Dias, completamente
a despropósito do tema, e sabendo-se que nunca a direcção assumiu qualquer tipo
de problema com esta militante, é no mínimo deselegante. De resto, como nenhum
órgão eleito em convenção foi auscultado nesta matéria, o peso de cada posição
sobre o assunto é uma incógnita e o camarada Luís Fazenda limita-se a partir do
princípio que a posição que defende é maioritária. É sempre um mau princípio
num partido democrático.
Seguro que, tendo passado o site oficial do
partido a ser usado para desafios internos a militantes do partido, estará
assegurado o direito ao contraditório, solicito a publicação desta resposta.
Saudações bloquistas
Daniel Oliveira
|