Opinião: Os efeitos da silly season PDF Imprimir e-mail
14-Ago-2007
jsemedo1. Além dos construtores civis e dos promotores imobiliários, quem está contra o Acordo de Lisboa?A direita e os seus partidos, bloguistas, analistas e comentadores. E também a FER e a Esquerda Nova, correntes minoritárias do BE que, tendo recusado a moção vencedora na última Convenção, clamam agora pelo seu cumprimento, supostamente posto em causa pela direcção do Bloco que - como é público e notório, foi precisamente quem redigiu e propôs a referida moção...

Por João Semedo, deputado e da Comissão Política do Bloco de Esquerda 

Ciumeiras à parte - que também as há, tanto quanto li e ouvi, mais ninguém condenou o Acordo. Talvez, eventualmente, mais uma ou outra voz, enfim, a tal excepção que confirma a regra.

O ruído provocado por este coro de críticos do Acordo estabelecido entre Sá Fernandes e António Costa coexiste com o silêncio dos dirigentes do PS sobre o assunto. Esta coexistência dá que pensar. Não creio estar a especular ao admitir ou mesmo concluir que, na direcção do PS, também não morrem de amores pelo acordo.



2.    Porquê esta contestação? Porque todos esperavam e previam - e alguns desejavam-no mesmo, que António Costa se entendesse com a direita. Com Negrão ou com Carmona. Ou mesmo com os dois. Mas nunca com a esquerda e muito menos com o Bloco. E, nunca mas nunca, apenas com o Bloco e, ainda por cima, dando guarida às suas principais propostas para Lisboa.

Antes das eleições e da própria campanha, meses a fio, estes inflamados críticos de agora - uns e outros, já se inflamavam prognosticando e anunciando que, sem maioria absoluta, o destino de Costa era, inevitavelmente, uma coligação com a direita. Mas, enganaram-se. Incapazes de o reconhecer, ficam-se pela contestação. O que vindo da direita ainda se compreende. Mas, de outras latitudes, é bem mais estranho. Porquê?

Porque, em Lisboa, a direita perdeu. Mais, teve uma dupla derrota: não só os seus candidatos perderam as eleições como também não recuperaram na "secretaria" aquilo que tinham perdido nas urnas. António Costa não seguiu o guião que lhe fora destinado por tão ilustres videntes e acabou por não se entender com a direita.

A direita ficou possessa com o Acordo de Lisboa. Por uma simples razão: porque ele desenvolve e consolida a sua derrota. A direita sabe - todos sabemos, que sem este Acordo, outro poderia ter sido o rumo dos acontecimentos. Com evidentes prejuízos para a população de Lisboa.

Esta contestação, de facto, chora as dores da direita. As lágrimas da direita, compreendem-se. As outras, estranham-se.



3.    Uns e outros choram ainda por uma outra razão. Surpreendeu-os e desagradou-lhes que o BE tivesse uma opção própria, autónoma, diferente da seguida pelo PCP. Ainda por cima porque cedo o PCP anunciou que não faria com António Costa o que fez durante quatro anos com Rui Rio. Se o PCP recusava o entendimento com António Costa, o BE não tinha outra saída que não fosse fazer o mesmo. Mais uma vez, enganaram-se.

Percebe-se que a direita prefira um Bloco que se comporte como um clone do partido de Jerónimo de Sousa, conduzido e determinado por mesquinhos ganhos partidários mas indiferente aos ganhos políticos que certas mudanças proporcionam. A direita deseja um Bloco sectário, um Bloco à PCP, porque não ignora nem esquece como a obsessão anti - PS da direcção comunista lhe tem evitado prejuízos maiores em situações de risco e aperto político.

Quanto aos outros críticos, o seu sectarismo não constitui novidade nem surpreende. Está-lhes na massa do sangue, faz parte do seu código genético. Sectários nasceram, sectários continuarão. Desprezando, tal como o PCP, as mudanças e os ganhos políticos, tanto lhes faz que a política da Câmara seja melhor ou pior para os lisboetas. Isso é pequena política. O que lhes interessa é fazer prova de vida, não cair no esquecimento, garantir umas linhas na comunicação social. Move-os apenas o ruído. Sem qualquer estratégia política, resta-lhes o recurso às tácticas da sobrevivência política.

Igualmente incompreensível é, ainda, que estes membros do Bloco admitam e pretendam um Bloco auto-limitado e resignado a copiar e a seguir as posições dos outros protagonistas da esquerda, alienando a sua autonomia e independência de decisão. Para isto, não tinha valido a pena constituir o Bloco.



4.    São, pois, de crocodilo as lágrimas derramadas pelos críticos do Acordo de Lisboa, quando choram pela autonomia do BE. Nem uns nem outros estão minimamente preocupados com isso. Pelo contrário, um Bloco preso a estratégias e interesses alheios, um Bloco manietado e a reboque de outros seria o quadro mais favorável e conveniente aos seus propósitos.

Criticar o BE e a sua direcção porque o Acordo de Lisboa não salvaguarda nem defende como devia a autonomia do Bloco, é do domínio da mais refinada hipocrisia política. O Acordo de Lisboa é, primeiro que tudo, uma afirmação de vontade própria, de independência de decisão, de autonomia política. Uma demonstração de maioridade do Bloco.



5.    De tanta hipocrisia não se pode esperar grande coerência no ataque ao Acordo de Lisboa e à decisão do Bloco. Para uns e para outros os argumentos são como pastilha elástica. Diz-se uma coisa e exactamente o seu oposto.

A direita alerta para o perigo da esquerdização do PS e antevê vida difícil para António Costa, agora tornado refém de Sá Fernandes. Em delírio, há mesmo quem imagine Lisboa como a futura Havana da Europa.

Se para estes o Acordo traduz a submissão do PS ao Bloco de Esquerda, outros sentenciam o contrário e anunciam mesmo o fim da oposição bloquista ao governo de José Sócrates. Do alto das suas certezas, garantem que foi o Bloco que se rendeu ao PS - e ao pior PS, dando por certo que em 2009 - logo à primeira oportunidade, o BE entrará num novo governo socialista, se não mesmo nas próprias listas candidatas às legislativas desse ano.

Há mesmo quem, obnubilado pela sua conhecida fantasia, anteveja o fim do Bloco e o condene ao asilo e à reforma no PS.



6.    A contestação ao Acordo de Lisboa e à posição assumida pelo BE tem de tudo: contradições, deturpações, falsificações, hipocrisia, sectarismo, preconceito, miopia e estupidez política. Mas, apesar disso, não deixa de ser surpreendente que silencie e ignore duas questões essenciais, aliás as únicas que são decisivas nesta controvérsia: o Acordo é bom ou mau para a cidade e para os lisboetas? Sá Fernandes declarou-se ou não disponível para uma convergência à esquerda se esta contemplasse os seis pontos programáticos que constam do Acordo de Lisboa?

Estas são as questões essenciais. E as respostas são simples, evidentes e incontestáveis: primeiro, as políticas consagradas no Acordo são boas para Lisboa e para os lisboetas e até agora ninguém defendeu, argumentou ou demonstrou o contrário; segundo, toda a campanha de Sá Fernandes girou em torno daquela disponibilidade e daqueles seis pontos.

Antes das eleições ninguém contestou o programa ou aqueles seis pontos, nem tão pouco a intenção anunciada por Sá Fernandes.

Após as eleições, Sá Fernandes fez o que anunciou e cumpriu o que propôs. Os compromissos eleitorais não podem reduzir-se a simples propaganda, são para respeitar.

Quanto ao Acordo de Lisboa, o Bloco não só esteve bem como não podia nem devia ter feito outra coisa.



7.    A contestação ao Acordo de Lisboa sustenta-se na habilidade de ocultar estas duas questões e na fuga consciente e deliberada ao exercício e à obrigação de lhes responder.

Mas, também, no truque de condenar o Bloco não por aquilo que ele é, faz, significa e representa hoje mas por aquilo que se supõe, imagina e anuncia que vai ser no futuro: apêndice, muleta, parceiro ou aliado do PS.

Quando a realidade não serve de argumento ou é ela própria o melhor desmentido, todas as fantasias e premonições são possíveis. Sem razão nem argumentos, o expediente é a futurologia. Como se a política fosse um jogo de cartomantes.

Não se responde nem combate a cartomancia com mais cartomancia. No discurso do futuro, cabe tudo e mais alguma coisa, todas as boas intenções e promessas.

Contra a cartomancia, em política e no mundo real, o que interessa são os factos.

Não os que supostamente hão-de vir ou acontecer, mas os do passado. Aqueles que a nossa memória regista e sobre os quais a nossa inteligência crítica se pode pronunciar. Não é no futuro mas sim no passado que se recorta e encontra a identidade do Bloco.

O Bloco tem oito anos. Oito anos de luta política e social por uma alternativa socialista e popular. Contra a direita e os seus governos. Contra as políticas neo-liberais do PS e dos seus governos. Oito anos que falam por si, oito anos sem qualquer cedência ou submissão ao Partido Socialista ou a qualquer outro. Oito anos de construção e afirmação de um projecto próprio, autónomo e independente, motor à esquerda da alternativa socialista.

Julgue-se, hoje, o Bloco por estes oito anos e não por aquilo que a cartomancia anuncia. 
 
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