O que nos junta é muito maior do que aquilo que nos separa
22-Out-2012
Contributo de Paulina Esteves.

Moção A, Moção B:
 
O que nos junta é muito maior do que aquilo que nos separa - não nos esqueçamos disto! 
É importante que valorizemos a diversidade de opiniões, que estejamos atentos às opiniões e atitudes dos demais. Abertos a olhar o mundo de outras perspectivas, que não só aquela a que estamos habituados.

Subscrevi a Moção B. Porquê? Porque me parece mais próxima, nas suas declarações, daquilo que eu defendo. No entanto não apresenta todos os itens que eu gostaria. Por exemplo, no que toca à importância do envolvimento de todos e todas @s aderentes, de base e dirigentes, para que os seus contributos sobre a percepção das realidades (das múltiplas realidades que ocorrem em cada instante e que NINGUÉM consegue sozinho abranger e compreender) se espelhem nas decisões políticas do Bloco, esse aspecto é ali ainda insuficientemente tratado. Falta ainda pensar muito, como é que um partido de esquerda poderá, no seu dia a dia, ser coerente com o ideal de "participação democrática interna", da base ao topo e do topo à base, tal como a defendemos também para o país e para o mundo.
Faltam propostas de "alteração de práticas e definição de procedimentos" que integrem as opiniões, as visões várias dos agrupamentos de base, nas decisões estratégicas da comissão política. Que tornem regular o mecanismo de auscultação, ratificação, explicação, crítica e auto-crítica; e tornem vivo este organismo que é
o Bloco. Que nos permitam manifestar desacordo e propostas alternativas se for esse o caso. Que nos permitam exercitar aquilo que defendemos que deve ser o país: participado activamente pelos cidadãos no exercício da democracia.
 
Claro que há pessoas especialistas em certas matérias, cujo contributo é essencial. Claro que há pessoas com maior capacidade de direcção, ou liderança, ou de organização ou mais carismáticos. Claro que é importante que essas competências sejam aproveitadas. Mas as competências dos outros, dos "não tão visíveis", também importa que sejam  percebidas e potencializadas. De algum modo ecoamos o país, cada um à sua maneira. E chega de tentar que as bases do partido transpirem apenas as posições do topo! Mesmo que se calem nas reuniões, todas as pessoas pensam por si. Se não houver espaço para praticar o diálogo, para
exercitar a voz, se permanecer a crítica constante à diferença, as pessoas vão-se embora. Afastam-se. Poderão continuar a simpatizar com posições do BE, mas se não forem criados espaços e mecanismos em que sintam que fazem diferença e em que faça sentido a sua individualidade, afastar-se-ão da participação activa no Bloco. Daqui resulta a actual falta de militância - há demasiados ressentimentos. Há escassez de autocrítica pública por parte dos actuais dirigentes, de topo
e intermédios. Há uma espécie de desprezo (sentido, pressentido) pelos "não-importantes" das bases.
 
Somos diferentes dos outros partidos. Pensamos nos outros, no outro, temos preocupações sociais. "Teremos de aprender a ser diferentes também, cá
dentro." Participar: significa estar atento, saber ouvir, pensar, absorver, defender o nosso ponto de vista, discutir, negociar, aceitar o acordo possível em cada momento; perseverar se for caso disso, respeitando democraticamente os outros. Isto é um processo que nos envolve a todas e a todos. Não cabe aos dirigentes, quando são convidados a participar numa reunião local, "esclarecer" as bases. Isso seria numa "sessão de esclarecimento". Se são convidados deverão participar nas reuniões tanto quanto as outras pessoas, sem direito a mais tempo "de antena" ou a discurso de encerramento. Deverão ouvir, conversar, e depois levar consigo as diversas opiniões.
 
Há uma certa escassez de humildade. Penso que a convivência no dia-a-dia com membros dos (vários) poderes torna amiúde as pessoas um pouco arrogantes - e isto desgosta-me - nota-se nos pequenos tiques e vozes, e logicamente torna-se um factor de afastamento da população. Conseguem "sentir" isto? Provavelmente estarão agora a pensar que estou a tecer considerações pouco importantes para um partido - mas garanto-vos que estas questões têm toda a importância para as pessoas! E a opinião das pessoas importa-nos, as pessoas são o cerne da minha militância num partido de esquerda. É ainda o discurso que deveria ser mais adequado às várias realidades, menos antiquado. Mas é também a "atitude" que nos deverá tornar mais próximos das pessoas.
 
 
O que mais admiro em muitos dos subscritores da Moção A: a sua capacidade de trabalho, de persistência, de perseverança. A sua história. A sua visibilidade, o serem pilares desta organização. Não concebo um Bloco apenas com elementos subscritores da Moção B, assim como não o concebo exclusivamente com os da Moção A. E faltam ainda aqui os "desenquadrados" destas duas Moções, que terão por certo outras visões enriquecedoras no futuro. Concerteza que iremos fazer um esforço para acolhermos mais diferenças e encontrarmos os tais pontos comuns que nos catapultem para uma real oposição de esquerda (não vou hoje tecer comentários sobre as políticas de alianças actuais). Concerteza que uma próxima Convenção terá ainda maior participação.
 
Sinceramente, a questão do/a coordenador/a ser de apenas um ou de dois elementos, um homem, ou uma mulher, ou um homem e uma mulher, pouco me importa, é-me tão secundária quanto eu acho que o essencial é a colaboração e a criação de boas equipas temáticas. Sendo que as vozes do Bloco para a comunicação social deverão ser adaptadas a cada assunto - como aliás o tem sido muitas vezes (não tenho visto o Francisco Louçã falar frequentemente sobre Saúde nem a Ana Drago sobre a Justiça, por exemplo). Acho no entanto que o processo de se propor publicamente alguma solução interna antes de ter sido conversada na organização é um pouco bizarro, mas não me quedo a pensar demasiado sobre algo que considero não essencial. Apenas penso que se anda a saltitar entre modelos de direcção um tanto estranhos à minha concepção de prática de democracia participativa e de cidadania. Mais uma vez, conscientemente ou não, deliberadamente ou não, estão-se a colocar outros valores à frente dos interesses das pessoas.
 
Portanto, eis aqui algumas das razões que me levaram a subscrever a Moção B: pretendi, ainda que de um modo insuficiente, participar num processo de mudança interna que propicie um "pensamento fora-da-caixa" ou um "fazer o pino com as ideias". Incompleta, cheia de defeitos, sou humana como todos nós, incompletos. Mas capazes de evoluir. 

Espero que a nova Mesa Nacional não se torne numa cristalização de "novas tendências", os da A versus os da B - desejo que após a Convenção cada qual continue a pensar pela sua própria cabeça; que defendam as posições com as quais se identificam, tentando chegar a acordo sempre que possível. E que passem a exercitar, humildemente, a auscultação interna. Gostaria que, num futuro próximo, eu (nós, os muitos "eus" que são os militantes de base) não tivesse a sensação
constante de que "não vale a pena" opinar e contribuir com as minhas ideias e actividades, por o eco da minha existência na organização ser nulo. Se sou aderente tenho o direito e o dever de existir nela, de ser ouvida, de participar. E os dirigentes eleitos o direito e o dever de me ouvirem, de contrapor, integrar ou não aceitar as minhas contribuições justificando-o, o dever de me tratarem como uma pessoa e não como se fosse um mero projector de slides.
 
Bom trabalho para tod@s nós!