quarta, 05 março 2014 15:17

A luta nos call centers

Foto Ben Kraan Architecten BNA/Flickr

A realidade dos call-centers, hoje em dia, vai-se generalizando e é dura. Os maiores aglomerados de precariedade neste país, onde os salários base são os mais baixos possível, mas onde se tenta que as pessoas trabalhem o máximo de horas possível. 

Um part-time de 6 horas facilmente se converte em mais uma hora extra aqui ou ali; um full-time de 8 horas para muita gente  converte-se em 12 ou 13 horas, porque o desespero de muitos e muitas para sobreviver já chegou a este ponto.

Passam uma, duas, três semanas, o que seja, a incutir-nos, nas formações, que somos a voz da empresa, apesar de nunca sermos trabalhadores da mesma. Depois da formação, por vezes ainda há um, dois, três meses de “estágio”, porque ainda assim podemos não ser a melhor voz da empresa; se sairmos, devolvemos o parco dinheiro que recebemos da formação.

Quem está do outro lado do telefone sempre que a televisão e a net falham, quando a luz falha ou temos dúvidas sobre a última fatura que nos chegou a casa? Quem está do outro lado da linha é o estudante que tem que pagar propinas cada vez mais altas, é o ex-enfermeiro ou ex-professor que a determinada altura teve que desistir da carreira que sempre quis por questões de sobrevivência, é o jovem que até de estudar desistiu porque sabe que não pode pagar.

E quem está do outro lado da linha tem que se juntar e lutar por adquirir direitos que, no fundo, ainda não tem. É um caminho longo para que tal aconteça, o medo de poder ser despedido a qualquer altura é demasiado grande para quem depende daquele dinheiro ao fim do mês, e as empresas não se abstêm de utilizar esse medo a seu favor. Um dia o feitiço volta-se contra o feiticeiro, e no dia em que as pessoas liguem para linhas de apoio ao cliente, apoio técnico, etc, e não haja mais que silêncio, talvez a consciência sobre este problema cada vez mais grave da situação de quase escravatura moderna de milhares de trabalhadores e trabalhadoras leve a alguma vitória dos mesmos.

Mas a realidade da luta nestes locais também é das mais duras e são locais onde um pensamento de querer lutar por mais é de difícil penetração, exactamente pela realidade já descrita. Mas também porque a realidade sindical ainda não se conseguiu ajustar a uma realidade do mercado de trabalho que não é mais o que era. 

Na verdade, penso que existem mais perguntas do que respostas quando falamos da luta por direitos em call-centers. Sabendo que quem trabalha como operador ou operadora tem um vínculo laboral com uma ETT (Empresa de Trabalho Temporário) e não com os quadros da empresa para a qual, de facto, presta serviços, como organizar uma massa de trabalhadores e trabalhadoras no mesmo local de trabalho? 

O seu contrato é temporário ou a termo incerto, nenhuma relação directa tem com a empresa que não a ETT, sendo que é aquela que define as suas funções; mas se é a primeira que define as funções mas não é a ela que estão ligados contratualmente, de que forma pode funcionar a sua relação com os sindicatos daquela empresa?

É, na verdade, uma relação complicada, porque quem trabalha nos call-centers não é visto como alguém que, na realidade presta serviço a determinada empresa, nem pela mesmo, nem pelo sindicato que representa os trabalhadores efectivos da mesma. 

Então, como organizar tantos e tantas que vivem nesta espécie de limbo?

Uma possível abordagem será a que, ainda timidamente, se vai desenhando na EDP e nos seus call-centers, em que o sindicato da EDP tem tentado algumas aproximações para com os trabalhadores e trabalhadoras, mesmo que não tenham vínculo directo com a EDP. Porque se reconhece, exactamente, que o trabalho feito é, directamente, para a mesma. Numa das últimas lutas levadas a cabo, a reivindicação era, parece-me, correcta: a integração de todos e todas as trabalhadoras dos call-centers nos quadros da empresa. 

No entanto, esta abordagem ainda é ténue e, na maioria dos locais de trabalho, inexistente; mas que me parece importante, porque junta forças em vez de dividir trabalhadores.

 Por outro lado, têm surgido tentativas, por parte de alguns sectores do movimento social, de criar, de raíz, um sindicato exclusivo para trabalhadores de call center, independentemente da área em que actuam (energia, telecomunicações, etc). Ainda não há muitos desenvolvimentos sobre esta abordagem, mas é algo no qual deveremos pensar e aprofundar discussão, tentando perceber os prós e contras, de que maneira se organizam interesses e direitos que, no fundo, podem variar de área para área. 

Também as denúncias colectivas sobre contratos de trabalho e condições precárias são momentos importantes para que hajam avanços nestas lutas. 

Como disse anteriormente, penso haver mais perguntas do que respostas nesta área da luta dos trabalhadores. É, para todos os efeitos, um tipo de trabalho recente, com leis duvidosas, onde abundam contratos de trabalho ainda mais duvidosos. E a verdade é que sem a segurança de um contrato de trabalho que conceda algum tipo de direitos as pessoas têm, de facto, medo de perder as suas fontes de rendimento por tentarem lutar por melhores condições. É a luta de classes arreigada, uma relação de poder difícil de combater mas que tem que começar por algum lado. Os passos já dados devem continuar a ser percorridos com mais afinco, e novos devem ser tentados, porque o futuro está aí e já não se podem ignorar estas fábricas da época moderna que são os call centers. 

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